A SUÁSTICA E A BOMBA DE GASOLINA
Paranaguá, largo Conego Alcidino ano 1930.
Há fotografias que não apenas registram o passado, mas o interrogam. Imagens silenciosas que, mesmo imóveis, parecem nos perguntar se sabemos, de fato, aquilo que julgamos reconhecer à primeira vista. Uma dessas imagens é a antiga fotografia do Club Litterario de Paranaguá, registrada logo após o incêndio que destruiu sua sede social na madrugada de 18 de dezembro de 1930. A fotografia, aqui reproduzida, nos devolve uma cena urbana da cidade por volta de dezembro de 1930 ou 1931 — um instante suspenso no tempo, marcado pela fumaça que já se dissipou, mas deixou cicatrizes visíveis.
No Conego Alcidino, ao fundo do Litterario ferido pelo fogo, surge um posto de gasolina. Nada nele pareceria extraordinário, não fosse um detalhe que captura o olhar e provoca inquietação: uma bomba de combustível ornamentada com a suástica.
O símbolo, reconhecido hoje de maneira quase automática, impõe uma pergunta incômoda.
Teria Paranaguá, ainda nos anos iniciais da década de 1930, mantido vínculos com a Alemanha nazista?
Teria a gasolina que alimentava os motores da cidade vindo de além-mar, carregando consigo a marca sombria de um regime que ainda estava por se consolidar?
A resposta, embora surpreenda, é clara: não.
A História, quando cuidadosamente interrogada, tem o poder de desfazer equívocos e revelar camadas mais profundas de sentido. Essa imagem congelada no tempo não é um indício de simpatias ideológicas nem de infiltrações políticas.
É, antes, testemunho de como os símbolos atravessam os séculos, mudam de significado e, por vezes, tornam-se prisioneiros de um único capítulo de sua longa existência.
A suástica é um desses símbolos.
Muito antes de ser apropriada pelo nazismo, ela já havia percorrido milênios e continentes.
Gravada em templos, tecidos, cerâmicas e amuletos, esteve presente entre hindus e budistas, gregos e celtas, povos nórdicos e eslavos, além de diversas culturas indígenas das Américas.
Em quase todas essas tradições, representava proteção, boa fortuna, movimento contínuo, equilíbrio cósmico e renovação da vida.
Não por acaso, no início do século XX, a suástica circulava livremente no mundo comercial ocidental. Empresas de diferentes países a utilizavam como símbolo de sorte e prosperidade. A própria Coca-Cola, em 1925, produziu chaveiros e pequenos “relógios da sorte” adornados com a cruz gamada. Desde o século XIX, o símbolo já figurava em marcas, rótulos e objetos do cotidiano, sem carregar qualquer conotação política extremista.
O Partido Nazista só passou a empregar a suástica — o Hakenkreuz, ou “cruz em gancho” — no verão de 1920. Ainda assim, Adolf Hitler somente ascenderia ao poder em 1933, e a suástica só se tornaria símbolo oficial do regime em 1935. É a partir desse momento que se consolida a associação entre o emblema e a chamada “Alemanha Nazista”. Portanto, os eventos retratados na fotografia de Paranaguá são anteriores a essa apropriação definitiva. Curiosamente, na própria Alemanha da década de 1920, o uso da suástica era proibido pelo Código Penal, justamente por estar ligada a um partido político.
A bomba de gasolina visível na imagem não tinha origem alemã.
Ela pertencia à Anglo-Mexican Petroleum Company Limited, empresa que mais tarde se tornaria mundialmente conhecida como Shell.
Fundada em 1897 e reorganizada em 1907 como Royal Dutch Shell Group, a companhia chegou ao Brasil em 1913, trazendo derivados do petróleo mexicano “El Águila”, referência que deu nome à sua atuação inicial no país.

A imagem analisada integra o acervo de Romélio Oliveira, da cidade de Feliz, e não possui data precisa. Sabe-se, contudo, que as primeiras bombas de gasolina começaram a ser instaladas nas ruas e garagens brasileiras a partir de 1922, transformando a paisagem urbana e anunciando uma nova era de mobilidade.
Jornais como O Estado de São Paulo, na década de 1920, estampavam anúncios da gasolina “Energina” e do querosene “Aurora”, ambos da marca “Svastica”, lançada em abril de 1920.
À época, o nome evocava exatamente aquilo que o símbolo tradicionalmente representava: sorte, energia, movimento e proteção.

A palavra suástica carrega múltiplos significados, mas, em sua essência mais difundida, remete à “cruz da boa sorte”. Sua forma sugere rotação, ciclo e continuidade — um movimento eterno em torno de um centro invisível. A inclinação dos braços varia conforme a cultura, alterando nuances simbólicas, mas preservando a ideia de ação e regeneração constante.
Somente em 1933, diante do avanço do nazismo e da crescente carga simbólica negativa associada à suástica, a Shell abandonou definitivamente o uso do emblema nos produtos da Anglo-Mexican distribuídos no Brasil. A empresa passou então a padronizar sua identidade visual com a famosa concha — criada em 1897, transformada em concha vieira em 1907 e preservada até os dias atuais.
Assim, a gasolina e o querosene consumidos em Paranaguá naquele período provinham da Shell ou de sua concorrente americana, a Standard Motor Oil, e não da Alemanha.
Diante disso, ao observar essa fotografia, o leitor é convidado a ir além da primeira impressão.
A imagem não revela a presença de nazistas em Paranaguá, mas sim a complexa trajetória dos símbolos e a importância de compreender o passado com olhar atento, crítico e sensível.
Porque, afinal, a História não se deixa ler apenas pelos olhos apressados — ela exige escuta, paciência e, sobretudo, memória.

Hamilton Ferreira Sampaio Junior
Referências:
Imagem do acervo de Romélio Oliveira, cidade de Feliz, sem data