Desabandonar não é apenas recuperar prédios antigos ou repintar fachadas corroídas pelo tempo.
Desabandonar é um ato político.
É escutar o que foi silenciado.
É reconhecer, nos muros descascados e nas pedras gastas das ruas, os ecos de uma cidade que fomos — e que ainda resiste em suas entranhas.
É um gesto consciente de reconexão com a história, com a memória e com a responsabilidade coletiva que carregamos.
Essa palavra me atravessou ao assistir, a um documentário em 2024 sobre a degradação da cidade de Paranaguá, apropriadamente intitulado Desabandonar.
O termo não suaviza o problema: ele denuncia.
Carrega em suas sílabas a urgência de quem se recusa a aceitar o esquecimento como destino e a ruína como paisagem naturalizada.
Paranaguá, mãe do Paraná, não está adormecida — está negligenciada.
Seu corpo de pedra e cal sofre sob o peso da omissão.
Suas veias, as ruas de paralelepípedos, ainda sustentam passos, mas também carregam a marca do abandono institucional e da indiferença social. Cada esquina esquecida, varrida pelo vento e pelo sal, expõe uma escolha: preservar ou permitir que a memória se esfarele.
Casarões de janelas cerradas e paredes feridas não pedem piedade; exigem compromisso.
As pedras do calçamento não clamam por nostalgia, mas por ação.
São arquivos a céu aberto, testemunhas de ciclos de exploração, resistência e transformação que o presente insiste em ignorar em nome da pressa e do lucro.
Desabandonar, portanto, é assumir posição. É romper com a lógica da maquiagem urbana e da restauração cosmética.
É tornar-se intérprete do silêncio imposto, devolver voz ao que foi calado, confrontar o esquecimento planejado.
É ser ponte entre o que fomos e o que ainda podemos ser, recusando a ideia de que o passado é um fardo — quando, na verdade, ele é fundamento.
Convido você, leitor, não apenas a contemplar o Centro Histórico, mas a questioná-lo.
Pare diante dos prédios que atravessaram séculos e pergunte: quem os abandonou?
Quem se beneficia desse abandono?
Silenciar-se, aqui, não é resignação — é escuta ativa.
Ouça o sussurro da sua própria história sendo ameaçada.
Permita-se reconhecer nela uma herança que exige cuidado, presença e enfrentamento.
Amar a cidade não é celebrá-la em cartões-postais, mas defendê-la quando ela é esquecida.
Porque o tempo passa, sim, mas o abandono é uma escolha.
E aquilo que foi verdadeiramente vivido não desaparece: é apagado, se não houver quem o defenda.
Que sejamos, então, a voz desses documentos sem boca, sentindo novamente a brisa que sopra da Ilha da Cotinga e atravessa, firme e insistente, o Rio Itiberê — não como lembrança romântica, mas como chamado à ação e à responsabilidade.
Hamilton Ferreira Sampaio Junior
Viva a Velha Paranaguá.