O historiador “Ctrl C e Ctrl V”
Nunca foi tão fácil ser “historiador”.
Na era da informação e das informações instantâneas, temos de tomar cuidado, porque quase sempre os conteúdos que nos apresentam são rasos, coisa de 1 minuto ou menos, então vamos divagar um pouquinho sobre este assunto que nos confronta todos os dias.
Quase todas as pessoas que conhecem um mínimo da história de sua cidade passam a ser denominadas historiadoras.
Mas vejamos: o que, de fato, define um historiador?
Podemos defini-lo como:
“Profissional ou pesquisador(a) que investiga processos históricos por meio da análise crítica de fontes documentais, orais, iconográficas, materiais e bibliográficas, buscando compreender, contextualizar e interpretar as experiências humanas no tempo.”
Consideremos, então, o que encontramos com frequência atualmente, quando o acesso à informação está amplamente facilitado.
Basta um olhar rápido, dois ou três parágrafos copiados de diferentes sites, algumas datas estrategicamente inseridas e voilà: surge um novo “especialista”. O texto circula, é compartilhado, recebe elogios.
Mas que pesquisa há nele?
Qual é a explicação apresentada?
O que, de fato, foi investigado?
O historiador “Ctrl C e Ctrl V” não pesquisa — compila.
Não analisa — reproduz.
Não problematiza — repete.
Simula erudição, mas evita o trabalho silencioso, paciente e criterioso que sustenta a escrita histórica.
A História não é uma colcha de retalhos costurada em formato digital. Não se constrói com passagens retiradas de contexto nem com excertos desprovidos de sentido analítico.
A História exige método.
Exige confronto de fontes.
Exige dúvida.
Exige autoria.
Pesquisar história e embrenhar-se em arquivos, às vezes em arquivos empoeirados e livros antigos procurando evidencias.
Pesquisa história:
é comprometimento.
é amor.
é esforço.
é humildade.
Arquivo Histórico Provincial de Granada, Espanha, 2024.
É no arquivo empoeirado, no livro raro, no documento quase ilegível, na entrevista paciente, que o historiador encontra seu material bruto.
E é na interpretação crítica que transforma informação em conhecimento.
Copiar é rápido.
Pensar exige esforço.
Vivemos um tempo em que a superficialidade recebe aplausos e a velocidade substituiu a profundidade como valor predominante. Mas a História não admite atalhos.
Aqueles que apenas reproduzem não constroem memória — multiplicam erros.
Aqueles que não investigam não esclarecem — apenas ecoam.
O teclado pode ter atalhos.
A pesquisa, não.
Se quisermos preservar adequadamente nossa memória coletiva, devemos respeitar o historiador que questiona, revisa e enfrenta narrativas consolidadas — e não aquele que apenas domina o “Ctrl C” e o “Ctrl V”.
Que tenhamos mais mentes como a de Frei Gaspar da Madre de Deus, um dos primeiros historiadores luso-brasileiros.
Que tenhamos, no Paraná, mais estudiosos como Antônio Vieira dos Santos, Romário Martins, Davi Carneiro, Túlio Vargas, Temístocles Linhares, Brasil Pinheiro Machado, Cecília Westphalen, Rocha Pombo e tantos outros cuja memória talvez não esteja sempre presente, mas cuja contribuição foi decisiva para a história de nosso estado.
Que possamos, de maneira responsável, desenterrar o passado e aprender com ele, e trazer aos dias atuais memórias sobre nossa identidade e cultura.
Porque a História não copia o passado.
Ela o compreende.
Imagem da capa, Universidade de Glasgow 2024.