Clube Literário e Recreativo de Antonina

hamilton |22 fevereiro, 2026

Blog | Rastro Ancestral

Para que possamos falar sobre o Clube Literário de Antonina, é necessário, antes, mencionar o Clube Antoninense. Fundado em 1873, já trazia em sua essência um viés literário bem definido.

Funcionava no prédio onde hoje está instalada a Prefeitura Municipal de Antonina, no Palácio que hospedou Dom Pedro II.

Em seu diário, o imperador faz referência ao clube — à época, evidentemente, tratava-se do Clube Antoninense — destacando seus livros e suas salas de leitura, o que demonstra a relevância cultural da instituição já naquele período.

O Club Antoninense funcionou no sobrado do Coronel Líbero Guimarães, edifício que posteriormente abrigou a sede da Prefeitura Municipal de Antonina.

Por possuir caráter mais literário do que social, o clube deixou passagens marcantes nos anais culturais da época.

Esse prédio recebeu, em seus salões e escadarias, personagens de grande relevância.

Entre seus visitantes ilustres estiveram Dom Pedro II, Olavo Bilac, Santos Dumont e João Machado da Silva.

Em seu diário, sob a data de 5 de junho de 1880, Dom Pedro II registrou sua impressão sobre o local:

“O Clube Literário está muito bem arranjado.
Também há leitura de noite. Poucos livros.”

Resultado da união dos tradicionais clubes 14 de Julho e Antoninense, o Clube Literário foi fundado em 11 de maio de 1932, sendo oficialmente instalado no dia 28 do mesmo mês.

Já mencionado nos diários de Dom Pedro II, quando em sua visita a Provincia do Parana em 1880.

O Clube estabeleceu-se em prédio próprio, localizado na Rua XV de Novembro, nº 49.

Aspecto da Rua XV de Novembro, vendo-se logo em seguida, à direita, o sobrado do Clube Literário e Recreativo de Antonina, em foto de 1928.

Fotografias da época registram também o sobrado da Rua XV de Novembro, já presente na paisagem urbana em 1928, símbolo de uma fase marcante da história social da cidade.

Iniciou suas atividades com 130 associados e uma biblioteca composta por cerca de 800 volumes.

A primeira diretoria teve mandato de quatro anos, assumindo a presidência o Sr. Manoel Mendes Cordeiro.

Com a fusão, encerrava-se a antiga e saudável rivalidade entre as duas agremiações, abrindo-se espaço para uma nova etapa na vida social de Antonina.

O Clube Literário passou, então, a organizar seus próprios eventos, destacando-se, entre eles, o tradicional baile de aniversário.

Tratava-se de uma celebração grandiosa, comparável às realizadas nos grandes centros urbanos, marcada pelo requinte e pela sofisticação.

As orquestras contratadas figuravam entre as melhores da capital, de outros estados e até do exterior, como a Cassino de Sevilha.

Os salões eram cuidadosamente decorados, com mesas e cortinas ornamentadas por arranjos florais. Os trajes acompanhavam o esplendor da ocasião: roupas de fino acabamento e damas que se distinguiam pela elegância e pelo luxo de seus vestidos.

Além do carnaval, o clube promovia outros eventos de grande prestígio, como bailes de debutantes, festas de formatura, tradicionais domingueiras e o animado baile realizado na véspera da festa da padroeira Nossa Senhora do Pilar, que atraía frequentadores não apenas da cidade, mas também de diversas localidades da região e da capital.

Há relatos de que a fusão dos antigos clubes não era, inicialmente, o propósito principal; cogitava-se a criação de uma nova sociedade, talvez com perfil mais seleto. Com o passar dos anos, entretanto, o clube consolidou-se como um dos principais palcos da vida social antoninense, sediando inúmeros e memoráveis acontecimentos.

Em 28 de maio de 1943, por ocasião de seu aniversário, o Clube Literário e Recreativo de Antonina realizou um dos bailes que ficariam marcados na memória coletiva.

O Carnaval de 1960 também permanece como lembrança vívida: fantasias criativas, como a havaiana confeccionada com esteira desfiada com garfo; da esquerda para a direita, Heliomar, Rose Froelich, Maria Alice Moreira, Marília do Rio Apa, Marília Silveira e Carlota Picanço, com criação e confecção de Enoe Rio Apa. Foto de Marília Rio Apa, 1960.

Hoje, porém, tanto o antigo sobrado do Coronel Líbero — que já abrigou a Prefeitura Municipal — quanto o prédio do Clube Literário encontram-se em total abandono e em avançado estado de ruína.

Seria cômico, se não fosse trágico: dois prédios históricos, ligados pela memória e situados na mesma rua, abandonados e transformando-se em ruínas silenciosas, enquanto a história se esvai na mesma medida em que o Centro Histórico caminha para o esquecimento.

imagens: autor, 2024

Não se trata apenas de paredes descascadas ou de telhados comprometidos. Trata-se da própria história de Antonina sendo consumida pela negligência. São dois edifícios que receberam Dom Pedro II, que testemunharam saraus, debates, bailes memoráveis e momentos decisivos da vida social e cultural da cidade — e que hoje permanecem entregues ao tempo, à infiltração, ao risco estrutural e à indiferença.

Cada rachadura que se aprofunda não representa apenas um dano físico: é uma fratura na memória coletiva. Cada pedaço de reboco que cai é um capítulo que se desfaz.

Imagens: Autor, 2025

O abandono não é silencioso — ele grita.

Grita na madeira apodrecida, nas janelas quebradas, nas paredes que cedem. Grita no perigo real que ameaça os transeuntes que passam diariamente por ali.

Aqueles salões com pinturas no teto, já não se reconhecem mais, o mofo e o bolor tomaram conta.

E, diante disso, impõe-se a pergunta que já não pode ser evitada: onde estão os responsáveis pela fiscalização e pela preservação do patrimônio histórico?

Onde está o compromisso público com a história que tanto se proclama valorizar?

Se nada for feito, não restarão sequer ruínas — restará apenas a vergonha de termos assistido, inertes, ao desmoronamento da nossa própria identidade.

Porque, quando um povo permite que sua memória arquitetônica seja reduzida a escombros, não perde apenas prédios: perde referências, perde raízes, perde a si mesmo.

Abaixo esta a área de tombamento da cidade de Antonina, os dois edifícios estão dentro da área de interesse de preservação.

Imagem: Mapa área tombada do Centro Histórico – IPHAN

Blog do Professor Eduardo Nascimento (Eduardo Bó).

 https://palavradobo.blogspot.com/2021/07/antonina-patrimonio-nacionalo-tombamento.html

Referências:

BERG, Claus Luiz, ANTONINA, 360 Anos de História / Claus Luiz Berg. Curitiba: C. L. Berg, 2006 187 pág.

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