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Máscaras e Mascarões: são elementos decorativos escultóricos, geralmente em formato de rosto humano ou até antropomórfico, utilizados na arquitetura eclética (final do século XIX e início do XX).
No contexto do Ecletismo, que combina estilos históricos, esses elementos adicionam grandeza, simbolismo e refinamento artístico às fachadas.
Desde os primórdios das manifestações artísticas, a figura humana ocupa um lugar central na história da arte, constituindo-se como um de seus temas mais recorrentes. Representada sob a forma de divindades, entidades cultuadas ou seres oriundos do imaginário coletivo, sua presença atravessa diferentes períodos históricos e contextos culturais, assumindo funções simbólicas, narrativas ou meramente decorativas.


Rua Dr. Leocádio, Centro Histórico de Paranaguá, 2026, Hamilton.
Em determinados casos, o corpo humano é representado sem um significado simbólico explícito, existindo sobretudo como elemento ornamental, valorizado pela harmonia, pela proporção e pela idealização estética de suas formas.
No âmbito da arquitetura, essas representações integram programas decorativos mais amplos, nos quais o ornamento desempenha papel fundamental na construção de sentidos visuais e simbólicos.
Rua Marechal Deodoro, Paranaguá, Centro Histórico, 2026, Hamilton.
Este texto propõe uma leitura das fachadas de algumas edificações de Paranaguá, Antonina e Morretes, com o objetivo de observar de que maneira a figura humana se manifesta na arquitetura dessas cidades históricas.
Nessas superfícies edificadas, a presença humana revela-se de forma discreta, porém constante, materializada em elementos moldados em pedra, argila ou azulejo, integrados a frontões, pilares, platibandas e demais componentes ornamentais.
Entre essas representações, destaca-se a recorrência da cabeça humana dissociada do corpo, elevada à condição de motivo decorativo autônomo.
Essa escolha formal encontra paralelo em tradições artísticas antigas, nas quais o rosto concentra a identidade, a expressão e o caráter do indivíduo. No contexto arquitetônico, essa fragmentação do corpo reforça o valor simbólico do rosto como elemento comunicativo e expressivo.
Atlantes e Cariátides: são representações em corpo inteiro ou bustos que desempenham a função de colunas ou pilares na sustentação de um entablamento. Reintegradas como elementos tanto decorativos quanto funcionais que evocam o Classicismo Grego, as Cariátides (figuras femininas) e os Atlantes (figuras masculinas) promovem simetria e ilustram a fusão de estilos típica do período.
Rua General Carneiro, Centro Histórico, Paranaguá, 2026, Lizangela P.S
As cabeças ornamentais manifestam-se, principalmente, sob duas tipologias: a máscara e o mascarão.
A máscara caracteriza-se por um rosto que pode aproximar-se da fisionomia natural ou afastar-se dela por meio da idealização, assumindo feições serenas, regulares e equilibradas. Suas origens remontam a práticas rituais de sociedades antigas, em especial na Grécia Antiga, onde eram utilizadas em cerimônias ligadas aos ciclos agrícolas, aos cultos dionisíacos e, posteriormente, ao teatro. Nesse contexto, a máscara cumpria a função de ocultar a identidade do indivíduo e, simultaneamente, permitir a incorporação de outra persona, seja ela divina, mítica ou simbólica.
No teatro grego, as máscaras desempenhavam papel essencial na construção do personagem, distinguindo tipos trágicos, cômicos e satíricos, bem como indicando estados de espírito, virtudes morais ou características psicológicas. Essa dimensão simbólica contribuiu para sua permanência no repertório artístico, estendendo-se às artes visuais, às pinturas murais, à cerâmica e aos objetos de uso cotidiano.
O mascarão, por sua vez, apresenta feições exageradas, expressivas ou distorcidas, frequentemente combinando elementos humanos, animais e vegetais. Essa hibridização formal associa-se a tradições simbólicas ligadas à proteção, à advertência e ao grotesco. Em diversas culturas, figuras monstruosas ou deformadas eram empregadas como elementos apotropaicos, isto é, destinados a afastar influências negativas, maus espíritos ou perigos invisíveis. No contexto arquitetônico europeu, especialmente a partir do Renascimento e dos estilos que se seguiram, os mascarões passaram a integrar fachadas, fontes e elementos urbanos, exercendo tanto função ornamental quanto simbólica.
Não é incomum que esses mascarões abandonem por completo a fisionomia humana, assumindo feições animais ou fantásticas, o que reforça seu caráter liminar, situado entre o natural e o imaginário, o belo e o grotesco. Essa ambiguidade visual contribui para seu impacto estético e para a multiplicidade de interpretações possíveis.
Em Paranaguá, Antonina e Morretes, máscaras e mascarões permanecem visíveis em fachadas de antigas edificações, distribuídos em frontões, arcos de portas e janelas, mísulas, platibandas e painéis de azulejos. Essas figuras atuam como testemunhos silenciosos das influências estéticas e simbólicas que moldaram a arquitetura local, refletindo a circulação de modelos artísticos europeus reinterpretados em contexto brasileiro.
Suspensos entre o passado e o presente, esses rostos esculpidos observam a cidade de forma imóvel, guardando, em sua materialidade, camadas de significado que ultrapassam o simples ornamento.
Constituem, assim, importantes vestígios da cultura visual urbana, nos quais se entrelaçam arte, história, simbolismo e memória.
Hamilton Ferreira Sampaio Junior
Referências:
KAYSER, Wolfgang. O grotesco: configuração na pintura e na literatura. São Paulo: Perspectiva, 2009.
PANOFSKY, Erwin. Significado nas artes visuais. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2011.
RIEGL, Alois. Problemas de estilo: fundamentos para uma história do ornamento. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
SENNETT, Richard. Carne e pedra: o corpo e a cidade na civilização ocidental. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 2014.
VASCONCELLOS, Sylvio de. Arquitetura colonial brasileira. Belo Horizonte: Itatiaia, 1999.