
O Brasil manteve campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial (1939-45), revelam documentos oficiais que estavam lacrados pelo governo e que ajudam a desvendar um período até aqui obscuro da nossa história.
Quando a base americana de Pearl Harbor foi atacada pelos japoneses, o Brasil mostrou-se solidário aos Estados Unidos, acelerando também as providências para defesa do próprio território e, por conseqüência, do continente sul-americano.
Em janeiro de 1942, um mês após esse ataque, o arquipélago de Fernando de Noronha foi declarada Zona Militar, enviando-se para lá um contingente do Exército brasileiro, que ficou estacionado numa das ilhas por três anos e oito meses. A pena de morte, que se destinava apenas a crimes políticos, foi estendida também a sabotadores.

No decorrer da guerra, outras providências foram sendo tomadas, limitando-se a movimentação de estrangeiros no território nacional e, a mais polêmica de todas, a obrigatoriedade e uso do idioma nacional nas escolas, causando a maior revolta nas colônias alemães.
Em resumo, o Brasil não faltou com suas obrigações junto ao sistema panamericano. O mesmo não se pode dizer de todos os países sul-americanos, alguns dos quais tiveram comportamento dúbio em face dos acontecimentos.

Quinta-coluna é um termo surgido durante a Guerra Civil Espanhola, em 1936, atribuído a uma suposta frase do general Francisco Franco:
“Se minhas quatro Colunas fracassarem, ainda disponho de uma “Quinta-Coluna” para ganhar a guerra.”

Referia-se ele à rede de espiões e sabotadores, infiltrados junto aos guerrilheiros comunistas, para minar-lhes a ação.
Conquanto todos os estrangeiros residentes no país sofreram limitações, dependendo de um salvo-conduto para deslocar-se de um a outro ponto do país, o governo pouco teve a temer, a não ser por ações isoladas de japoneses, italianos e espanhóis, ligados ao Eixo. O próprio Mussolini lamentou não estar conseguindo montar, entre a colônia italiana, uma rede eficaz de colaboradores do fascismo. Sobre os italianos, escreve “O Estado de São Paulo” em 4 de abril de 1942:
“Prendendo todos os indivíduos de comprovada ação nefasta ao nosso país, a polícia não tem encontrado súditos da Itália entre os espiões totalitários, detendo, entretanto, vários espanhóis articulados com os enviados das nações agressoras. Essa observação deve ficar registrada em homenagem à verdade dos fatos e à lealdade dos elementos italianos radicados em nosso país.”
O mesmo não se pode dizer dos alemães, bastante atuantes e infiltrados até o âmago de setores importantes do governo. O jornalista David Nasser, em seu livro “Falta Alguém em Nurenberg” lança um libelo contra o chefe de Polícia, Filinto Müller, homem de confiança do Presidente:
“O chefe de Polícia não fazia esse trabalho de colaboração com o inimigo desorganizadamente, sem plano certo. Possuía um mentor nazista, ao qual ele prestava conta de seus atos e de quem ele recebia instruções. Tratava-se de um conselheiro da Embaixada Alemã. (…) O Filinto não saía de lá. Fazia visitas frequentes e demoradas, mesmo no tempo em que devia atender aos interesses do Brasil na chefatura de polícia. Preferia resolver com o tal conselheiro as dificuldades da embaixada de Hitler, representada nas pessoas de Von Cossel e outros seus amigos. Esses agentes secretos nazistas já nem eram mais secretos, tal a liberdade de movimento que possuíam nas dependências da polícia, como se fosse um território alemão. E não era?”
Sobre a presença alemã no Brasil, o observador estrangeiro Ewart Turner, escreve a obra “German Influence in South Brazil” nesse mesmo ano de 1942, informando que os imigrantes alemães somavam um milhão de pessoas, em sua quase totalidade simpatizantes do nazismo. Os mais influentes e atuantes, segundo ele, eram os pastores protestantes, e cita um caso curioso:
“O pastor de Nova Breslau foi apanhado em atividades subversivas. A polícia ordenou sua prisão. Ao ouvir isso, o Consulado Alemão de Florianópolis avisou-lhe por telefone que ele estava contratado como vice-cônsul. Isso lhe propiciou imunidade diplomática, com a qual passou a desafiar quem o prendesse. Quando o assunto veio a público, os nazistas mandaram-no de volta à sua paróquia. Desde então, o nome da cidade mudou de Nova Breslau para Getúlio Vargas.”
E Turner, já citado acima, escreve sobre a ação de agentes alemães no Brasil: “Os recém desembarcados professores, todos homens, foram descobertos, organizando a juventude em unidades paramilitares.”
Eram as AS (Sturmabteilung), ao pé da letra, “Seção de Assalto“, organizações que os nazistas organizavam em países inimigos para facilitar a tomada do poder.
Esse é o grau de dificuldade que o governo brasileiro enfrentava, em nível interno, para a defesa nacional, em face da Segunda Guerra Mundial.

A partir de 1942, cerca de 3.000 pessoas de origem alemã, italiana e japonesa foram mantidas em dez campos de concentração criados em sete Estados brasileiros (PA, PE, RJ, MG, SP, SC e RS).

Sem nenhuma semelhança com os campos nazistas, os espaços de confinamento brasileiros permitiam que os prisioneiros saíssem para fazer compras na cidade, receber visitas e até tocar em festas.
Um episódio marcante foi a apreensão do navio alemão Windhuk, que, para fugir da marinha inglesa, aportou em Santos. Os tripulantes alemães foram presos e levados para campos de concentração (leia texto nesta página).
O assunto é tema de uma tese de doutorado em história social na USP, defendida pela historiadora Priscila Ferreira Perazzo em agosto passado, e do livro ”O Canto do Vento” (tradução de Windhuk), do jornalista Camões Filho. Está ainda sendo investigado por vários outros pesquisadores da USP.
Segundo o livro de Camões Filho, depois do fim da guerra, 90% dos prisioneiros ficaram no país.

Esse período da história brasileira jamais foi incluído nos livros didáticos porque, até 1996, era considerado secreto pelo governo, que permitia somente o acesso parcial aos dados. Os arquivos oficiais foram lacrados com base em uma lei que proibia consultas ou pesquisas por 50 anos. Em 1988, o prazo caiu para 30 anos.
“Essa é uma história que está para ser escrita e foi omitida por ser inoportuna. Esses arquivos revelam os carrascos de uma fase desagradável da história política brasileira“, diz a professora da USP e coordenadora do projeto Arquivo-Universidade, Maria Luiza Tucci Carneiro, especialista em racismo e anti-semitismo.
A criação dessas áreas para prisioneiros ocorreu a partir de agosto de 1942, época em que o Brasil saiu da neutralidade em relação à guerra e se posicionou a favor dos Aliados (EUA, Inglaterra e França). O bloco lutava contra os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). O Brasil era governado por Getúlio Vargas.
De acordo com Perazzo, autora da tese intitulada “Prisioneiros de Guerra. Os Cidadãos do Eixo nos Campos de Concentração Brasileiros“, a perseguição aos imigrantes já existia alguns anos antes da eclosão da guerra. A diferença é que, antes da adesão aos Aliados, os imigrantes eram vistos como “cidadãos indesejados“.
A partir de 1938, alemães, japoneses e italianos começaram a ser severamente reprimidos no Brasil por representarem uma ameaça ao projeto nacional-moderno do governo, já que tinham ideologias diferentes das sugeridas no país.

Um dos alojamentos do antigo campo em Guaratinguetá
A reclusão nos campos foi praticamente uma precondição para o apoio do Brasil aos Aliados. A historiadora explica que o tratamento dado aos imigrantes deixou de ser uma questão nacional para projetar-se como um dos elementos de negociação no campo da política internacional.
O Brasil teve sua recompensa depois da guerra. Enquanto a Europa estava quase destruída, o país aproveitava um dos períodos mais promissores no que diz respeito à geração de empregos, provenientes da industrialização com o apoio do Aliados.
Santa Catarina manteve dois campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Num período ainda obscuro da história catarinense, entre 1942 e 1945, pelo menos 200 pessoas foram confinadas sob a acusação de “invasores infiltrados”, “espiões” ou “agentes de Hitler” em campos montados em Florianópolis e Joinville.
Ironicamente, aqui não eram os judeus, mas os nazistas que foram retidos em campos de concentração. Enquanto Hitler exterminava milhões de judeus, os alemães simples imigrantes ou simpatizantes do nazismo que moravam no Brasil foram perseguidos pelo governo Getúlio Vargas, que contava com um eficiente aparelho nacionalista.
Além dos dois campos, delegacias serviram para que milhares de estrangeiros e descendentes fossem detidos em todo o Estado, interrogados, e não raras vezes torturados por agentes da Delegacia de Ordem Política e Social (Dops), simplesmente porque falavam alemão ou italiano.
Em todo o País, o governo de Getúlio Vargas perseguiu, prendeu e confinou mais de 3 mil alemães, italianos e japoneses em campos de concentração criados em oito Estados brasileiros (além de Santa Catarina, Pará, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul).
Como na época a colônia japonesa praticamente inexistia no Estado, a polícia catarinense caçou italianos e, especialmente, alemães. Quando a guerra acabou, os arquivos oficiais foram lacrados e esquecidos. A legislação sobre o acesso aos documentos, que proibia consultas ou pesquisas por 50 anos, foi abrandada em 1988, e o prazo caiu para 30 anos. Mesmo assim, só em 1996 os historiadores tiveram acesso ao acervo.
O número correto das áreas de prisões criadas pelo Brasil ainda é impreciso.
De acordo com os documentos, os campos de concentração brasileiros foram criados a partir de agosto de 1942, quando o País deixou a neutralidade e passou a lutar ao lado dos Aliados (França, Inglaterra e Estados Unidos) contra os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão).Pelo menos 13 áreas de confinamento já foram mapeadas por um grupo de historiadores que mergulhou nos documentos oficiais da Divisão de Polícia Política e Social (Deops) e em prontuários e relatórios da polícia política, o Dops.
Não há registros de que tenha havido qualquer execução, extermínio ou morte em câmaras de gás, como na Alemanha, mas os documentos mostram que houve trabalho forçado, tortura e, como em todos os episódios históricos em que o poder é prevalece pela força, prisões ilegais.
Em Santa Catarina, o interventor Nereu Ramos manteve uma linha dura e um regime considerado pelas autoridades militares do governo Vargas como exemplar. O Estado também teve um brutal sistema de captura. Sob o comando do chefe do Dops, Antônio Lara Ribas, policiais em todo o Estado produziram verdadeiras caçadas a nazistas e fascistas, com tortura em praça pública, invasão de casas, apreensão de objetos e vingança pessoal.
Na época, nas colônias e cidades mais vigiadas, ninguém saía de casa ao anoitecer e todos os que falam português com sotaque europeu silenciaram, com a certeza de que as próprias palavras seriam utilizadas como prova do subjetivo crime contra a segurança nacional.

Prédio foi requisitado pelo governo e nele foram confinadas as pessoas presas em Joinville
Ruínas em cemitério de Joinville e três prédios centenários reformados na UFSC é o que restou das unidades
Três prédios centenários reformados em Florianópolis e ruínas quase imperceptíveis entre túmulos do Cemitério Municipal de Joinville é tudo o que restou dos prédios onde funcionaram os campos de concentração em Santa Catarina durante a Segunda Guerra Mundial.
A ala masculina do campo da Trindade, onde ficaram internados quase todos os alemães presos durante a guerra, abriga hoje a Prefeitura do campus da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Antes de ser local para o exílio dos “súditos do Eixo” era apenas uma seção agrícola da penitenciária estadual.
No primeiro andar do edifício funcionava o refeitório, e quase 100 presos dormiam no segundo andar. O terceiro prédio funcionava a administração da prisão e eram realizados todos os longos interrogatórios. A sala mais escura do prédio possivelmente serviu como local de tortura.
Tanto em Florianópolis quanto em Joinville, quase todos os presos eram imigrantes alemães radicados no Estado desde o período de colonização ou casados com brasileiras.
Em Joinville, o campo de concentração foi descoberto por pesquisadores da Universidade da Região de Joinville (Univille) e do Arquivo Histórico de Joinville em 1999.
Estudiosa da saúde, a historiadora Arselle de Andrade Foutura descobriu um relatório confidencial do Ministério do Exterior em Bohn (Alemanha), que relatava como funcionava o campo de concentração de Joinville.
O prédio que serviu para a instalação do campus era utilizado, até 1942, como hospício. O Hospital Oscar Schneider foi construído na década de 20 para servir como local de isolamento para doentes mentais, e desativado em 1942, exatamente no ano em que o governo de Getúlio Vargas decidiu declarar guerra contra a Alemanha, o Japão e a Itália (Eixo).
O prédio foi requisitado pelo governo e nele foram confinadas as pessoas presas em Joinville. Segundo o relatório do Ministério do Exterior, em 1944 as condições do Oscar Schneider eram melhores do que as de outras prisões brasileiras, especialmente porque havia mais higiene nos quartos.
O campo tinha capacidade para 200 presos, mas o relatório diz que, em 1944, havia apenas 28 detentos e a maioria deles era descendente. Só quatro eram alemães. O prédio ficava numa das planícies do terreno onde hoje está o Cemitério Municipal de Joinville, no bairro Atiradores.
— Hoje, existem apenas ruínas no chão, que dão uma vaga idéia de que ali havia um hospital —, explica a historiadora.
Os campos de concentração no brasil
Campo de Concentração de Tomé-Açu/PA
Campo de Concentração de Chã Estevam/PE
Campo de concentração de Ribeirão Preto/SP
Campo de Concentração de Bauru/SP
Campo de Concentração de Pouso Alegre/MG
Presídio de Niterói/RJ
Campo de concentração de Garatinguetá/SP
Campo de concentração de pindamonhangaba/SP
Presídio Daltro Filho/RS
Hospício Oscar Schneider/Joinville, SC
Presídio da Trindade/Florianópolis, SC
Campo de Concentração de Tomé-Açu/PA
Pará teve campo de concentração durante Segunda Guerra Mundial
Instalações receberam colaboradores do Eixo e imigrantes perseguidos pela população

Campo de concentração de Tomé-Açu funcionou entre 1943 e 1945
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